domingo, 28 de março de 2010

arabesque


na parede arabesco,
barata alfinetada
em fuga
asas marrons
douradas de luz,
pequenos pontos
adejando, desejando
a espiral

é já bastante voar,
espetada,
arabesguisada,
despindo véus,
bruma nua
enevoada em teu colo

é já bastante
ser púrpura no batom
e não na fita que enrola
o pescoço da benção,

é já bastante ser ar,
firme no andar solar,
no voo, polén,
arabesco, arabesque enrolando
a mecha divina
do teu cabelo

quarta-feira, 17 de março de 2010

domingo, 14 de março de 2010

By Helena Ortiz


BOM-DIA AURORA


Queremos milagres, mas mantemos os velhos costumes.
Queremos alegria, mas é a melancolia que se abate sobre nós.
Queremos chuva quando sol e sol quando chuva
Nosso cabelo é crespo, liso, armado, preto ou branco. Não gostamos.
Nossa unha encravada é mais importante
que a Terra inteira o tempo e toda a história
Viajar para outros estados de consciência não para fugir, mas para encontrar a parte mais sensível do que somos, outros mundos, outras dimensões. A aurora se oferece.
Bom dia, bom domingo, boa sorte.



Contradito
.
todo o tempo me dizem: não és nada
não tens credo
nem amor
não existes
.
mas acordo e te vejo
Sol obtinado
e sei que me coubeste

quarta-feira, 10 de março de 2010

Canto do Estrangeiro


Viria como um rei
Se fosse por vontade tua.
Tão remoto no tempo
Da tua vida
Que nem te tocasse.
Viria com a alvorada,
Quase miragem debuxada
De uma ave
Sobrevoando a tua história.
Sem te possuir
Nem te pertencer,
Para o teu prazer um aceno
O mais natural
Seria o meu sinal no longe,
Isento de paixões
E cheio de glória:
Nada semelhante
À paz que sucede as guerras
No regresso de um Ulisses
Vagabundo,
Exausto de triunfo, como eu
Que penetro o teu mundo
Envolto em sombra
E para sempre me despeço
Ao desfiar a púrpura
Que a espera pôs
Nas tuas pálpebras.

O múltiplo violão de Toneco


Ele veio de Pelotas para Porto Alegre no iniciozinho dos anos 70, praticamente junto com Kleiton e Kledir. Tocava violão com a turma deles, que ainda nem pensavam em formar o grupo
Almôndegas.
Em 1973, começou a acompanhar o também iniciante compositor Fernando Ribeiro nos festivais estudantis e é esse o ano que se pode considerar como o primeiro da carreira de Toneco da Costa. Tocou e gravou com meio mundo, liderou grupos, e nunca investiu pra valer na exposição do próprio trabalho. Mas com Inverno, o disco de estreia, sempre cobrado e só agora lançado, ele paga a antiga dívida. O CD é tão bom que compensa a longa espera. Quem se acostumou a admirá-lo em shows de outros, aqui tem a exata medida da capacidade violonística e autoral de Toneco. Nem pestanejo ao afirmar que é um dos maiores violonistas do país, tocando o mais puro
violão brasileiro. Reúne precisão técnica e sensibilidade, sabe ser enérgico e suave, conhece
muito porque estudou muito e praticou muito. O disco começa e termina com a composição
Inverno em versões muito diferentes; a primeira com violão e a gaita ponto de Renato Muller,
a outra com violão, o sax soprano de Pedrinho Figueiredo e apercussão de Fernando do Ó.
Toneco divide o álbum em Suíte 1, com 14 temas (ou movimentos), e Suíte 2, com três. A classificação faz sentido, pois o diálogo entre o popular e o erudito é constante. São sete temas de
violão solo, um mais bonito que o outro. Há arranjos para violão e mais um instrumento, como
o violoncelo de Celau Moreyrano tema clássico Estudo em G; para dois violões (o segundo é Thiago Gonçalves, filho de Toneco, seguindo as pegadas do pai), como em Choro da Cidade; e para mais instrumentos, como em Marjorie, a faixa mais vigorosa e seus ares de chacarera, também com Pedrinho e Do Ó. Deixo de citar outras, pois quanto mais escrevo mais falta dizer.

@ Lançamento Fumproarte,
à venda no site Antares
Música.

domingo, 7 de março de 2010

Esquina Maldita



Na minha cidade

Existe um ouriço que é permanente

Do vamos fazer, crescer, surgir

E permanecer

A letra, a tinta, o pincel

A voz, roucos, calados

Entrevigiados, cortados, pendurados

À luz da esquina desta cidade

Que espera no tempo que o tempo se apresse

Com sua esquina do Copa 70

Do Alaska sem frio

Do Estudantil

Que antene seus rumos

Discuta o sucesso

Do filme, do som

Da ordem-do-dia, do que fazer

Chegar a outro dia

Arrastar seus copos

Que estamos fazendo

Aguardando que o tempo

Nos mostre o caminho

Que a gente escolheu

sexta-feira, 5 de março de 2010

Fevereiro ou um Mediano Destino




Quando dei por mim,

desatino,
um outro sem aviso,
pedrinha a mais no caminho
do caminho estreito
menor que a pedrinha.

Um desvio de rota
levou meus dias e noites
para um esquife boiando sobre
pneus e destroços desse arroiozinho
que nasce em Viamão e vem descendo,
singrando avenidas da cidade,
passando por este hospital,
chegando no Guaíba,
conversando com tantos rios
até que o mar o devolvesse.

Não levara moeda para Caronte...

Média vida breve,
mediastina morte lenta.

Sobre o Dilúvio ensombrecido,
passo por Deus e pela cidade
do tratamento intensivo,
escoando em sondas.
Na ponta nós.

Porões de um tibet catártico,
esofágico destroço, entubada-extubada,
pontuado por dedos e laços.

Na ponta, Nós.

A grande neblina lembra,
Ainda aqui?


E outro sol depois de muitas chuvas,
pulmões submersos rolando arroios.
Mais pontas a examinar o fim,
a lançar olhos nas sombras
que embebedam o ar.

No colo da morfina, no colo dos meus pais,
no colo dos meus filhos, a mão de Antonia segura
a mão de Nossa Senhora que segura a minha mão,
que me ergue e diz, Vai, não olha para trás,
tu és sal, poeira, um montinho de temperos
com uma pedrinha a menos no caminho,
com um tempo a mais para dizer,
essa tua doença de não calar,
com a tua mania de te apaixonar
pelos fiozinhos d' água, pelo mar
pelos barcos e pelos homens que te beijam.